A consulta

O problema, doutora, é que não estou conseguindo viver o luto. Isso porque, na verdade, ela não morreu. Digo, oficialmente não, mas está vegetando. Os especialistas dizem que foi acometida por uma doença degenerativa há mais de 15 anos. Desde então, só piora, com os sintomas mais evidentes nesses últimos dois ou três anos. Tenho pra mim que ela chegou nesse esse estado por abandono. Confesso que eu mesmo andei deixando ela de lado nos últimos tempos. Queria me livrar dela e me conformar com o que a vida tinha me dado até ali. Seguir em frente. Mas aí chegava em casa e ficava delirando sobre algo que eu não tinha, sonhando com uma versão idealizada dela. Tinha era que ter me agarrado naqueles últimos momentos, doutora.

Quando a conheci? Ah, eu era molecão! Inocente, puro e besta, como diria Raul. Ela já experiente, né, cheia de prestígio. Mesmo na pindaíba, sempre teve voz por onde passava. Veja só como são as coisas. Eu, preguiçoso que sou, pegava todo dia um ônibus debaixo do sol de meio dia para ir ter com ela. Ah, doutora. Desculpe o palavreado, mas foi tesão à primeira vista. Eu todo atrapalhado, não sabia muito bem o que fazer, aquilo tudo ali na minha frente… E nem me dizia como proceder. Ficava só esperando o toque, acho que estava me testando.

Fui tateando, seguindo os conselhos dos mais experientes, e até que me saí bem. Achei que ali eu tinha passado no teste pra sempre. Vim com ela pra capital, cheio de planos, de confiança. Queria voar alto. Eu tinha certeza de que ela podia me levar longe. Hoje eu vejo que levou, mas demorou um pouco. É… A chegada foi meio desastrada. Me meti com uma parente dela, bem mais jovem. Um simulacro, essa palavra que os literatos gostam de usar. Era como se fosse ela, mas com aquelas coisas da juventude que eu reconhecia em mim e me diziam que era o que dava futuro. Pra que me meter com velha?

Não deu certo. Acho que nasci com espírito de velho, mas com corpo e cabeça de jovem. Eu queria crescer, envelhecer, e aquela novinha era de poucas palavras, sempre apressada… Era tudo pra agora! Muita afobação, até mesmo pra mim. Eu me sentia desorientado, citava Raul de novo: eu devia estar contente, mas confesso abestalhado que estou decepcionado.

Comecei a beber demais, experimentar uns negócios que davam uns baratos estranhos. Não foi praquilo que eu saí da cidadezinha pro interior e do interior pra capital. Precisava me livrar daquela vida. Pedi uma nova chance. Só ela podia botar minha vida no eixo. Estava perdendo as esperanças quando ela me aceitou de volta. Aquele retorno era mais do que uma volta, era um renascimento. Dali, mesmo com alguns contratempos, a relação se tornaria mais madura a cada dia, a cada ano.

Na hora da retomada, porém, eu não pensava nisso, nem poderia ainda. Só repetia que ela tinha me pegado de jeito, para sempre. Eu era dela. Olha o nível: me levou pra fora do país pela primeira vez na minha vida! Fiquei em resort, luxo total, à base de salmão e vinho. Depois saímos pelo Brasil-Central, pelo Norte, Nordeste… Eu voltava pra casa nas férias supostamente sozinho, mas com o cheiro dela impregnado na fala, no andar. Eu era alguém pela primeira vez naquela cidadezinha, doutora. É provável que, para quem estivesse lá desde sempre e para sempre, eu fosse o mesmo. Mas eu sabia que não era mais. A essa altura eu já sabia a tradução da letra de New York, New York. Agora eu cito Frank Sinatra. Start spreading the news. I’m leaving today. I want to be a part of it…

Eu era parte daquilo. Voltava cheio de energia e caíamos na estrada de novo. Mas não demorou para a coisa degringolar outra vez. Fui com muita sede ao pote, me daria conta anos depois. Achava que tinha crescido, mas ainda era um meninão afobado. Não era assim que a banda tocava. Era preciso uma dose de sacrifício. Podia não ser mais inocente, nem puro, mas ainda era besta.

Dessa vez acabei curtindo a fossa quieto no meu canto. Foi bom para refletir, repensar tudo que tinha vivido até ali e se eu era digno dela. Um dia me chamou para conversar. Disse que eu não havia entendido bem o recado. Mas admitia ter sido generosa demais comigo. No processo, acabou me iludindo de que seria sempre aquilo e só aquilo. Eu tinha aprendido a lição e seria mais maduro dali pra frente. Era o que eu dizia para mim mesmo. A grande chance veio logo. O tempo afastados aumentou ainda mais o tesão. Se durante a fossa eu temia não conseguir mais comparecer se houvesse um retorno, agora eu era um dínamo, um moto perpétuo.

Pegamos a estrada novamente, mas, dessa vez, sem luxo nenhum. Trocávamos o voo charter com hotel de luxo por carro alugado com pousadinha sem chuveiro quente. Na verdade, apenas trocamos de luxo. Depois de uma semana numa segunda lua-de-mel num lugar inusitado para aquilo, eu entendi os valores que queria naquela relação. Aquilo sim era uma troca, embora dificilmente alguém poderia retribuir igualmente tudo que eu estava ganhando. Eu achava ter os pés no chão, mas na verdade estava flutuando. Na volta, ficamos três semanas trancados em casa. Tivemos dê-érris intermináveis seguidas de longas sessões de puro amor e intenso tesão aplicado.

A coisa foi andando bem. Emendamos um longo período de comunhão em que eu aprendia como nunca, nem sempre da forma mais suave. No dia seguinte eu agradecia aquilo tudo, mesmo estando assado, ardido, cheio de hematomas. Sim, ela ensinava muitas vezes sendo cruel, mas eu achava que entendia o recado no fim. Até que esse método foi me deixando cansado, achava que estava perdendo a dignidade, a ponto de um dia eu simplesmente pedir um tempo. A troca não estava mais sendo equânime. Eu queria mais para a minha vida.

Àquela altura, eu nunca tinha estado tanto tempo num relacionamento. Por isso mesmo, eu argumentava, nossa história, tudo que tínhamos vivido juntos, merecia destino melhor do que continuar daquele jeito, juntos por inércia, uma conveniência que não me fazia bem. Nem a ela. Queria ela ter tido mais homens com a minha coragem, eu quis dizer, mas não disse porque ela sabia melhor do que ninguém.

Fui atrás de retomar projetos antigos que eram sempre postos de lado com a desculpa da correria diária, do relacionamento que não dava trégua; era isso, também, mas principalmente a preguiça e a acomodação que o tempo traz. Peguei a estrada de novo. Dessa vez, sozinho. Ainda assim, não conseguia me dizer livre dela. Já era parte de mim. Eu insistia, porém, que precisava achar novos caminhos, encontrar a verdade das coisas por conta própria, sem ela no meu ouvido apontando caminhos. Encarar meus medos sozinho.

Mas tinha aquele objeto na minha mão, o tempo todo, a denunciar meu relacionamento perpétuo. Às vezes, eu punha no bolso, mas nunca saía sem. Me sentiria nu. Era uma fidelidade que eu não conseguia me desvencilhar. Tentava uma aproximação com outras, me encantava, mas quando me aproximava um pouco mais, percebia que o que me atraía nelas era justamente o que tinham dela.

Voltei depois de alguns meses. Tudo de novo. Eu diante daquilo tudo. Já me sentindo tão íntimo e hábil, ciente da capacidade dominar aquele terreno. Passamos uns meses renegociando os termos da relação, e em pouco tempo estávamos colados novamente. Àquela altura, no entanto, ela já estava num processo de adoecimento, embora eu não quisesse pensar a respeito. Na verdade, havia adoecido há muito tempo, mas os sintomas nunca foram tão evidentes como agora.

Suas células vinham perdendo a capacidade de se renovar. Esse processo que o corpo precisa fazer a cada segundo para continuar vivendo, mas que progressivamente deixa de acontecer, seja por doença, seja pela simples passagem do tempo. Alguns especialistas acreditam que é só isso: velhice. Outros, que é uma doença degenerativa contraída por volta de 1998.

O estranho é que algumas células se renovam muito bem, criam uma vida própria. Todo o resto, porém, apodrece a olhos vistos. Então um dia, ela mesma, num dos tantos rompantes que teve ultimamente, mandou-me embora. Tornei-me um viúvo de mulher viva, doutora, embora ainda haja quem diga que tem salvação, que as coisas hoje em dia mudam muito rápido. Mas eu temo, temo que agora seja tarde. Penso que os que vieram antes de mim teriam de ter tomado certos cuidados, mas como julgá-los?

Não dava para ter a dimensão de tamanha destruição. O que sei é que agora vivo nesse estado. Catando algumas migalhas que ela joga, como que compadecida do meu sofrimento, quando chama meu nome através da máscara de oxigênio. Nessas visitas à UTI umas primas gaiatas dela, que foram se aproximando com o tempo, dão em cima de mim. Na cara dura! Elas aparentam vitalidade, doutora, mas também não estão com essa bola toda. Eu sei que são umas decrépitas, posso sentir pelo hálito. É tudo botox.

Mais fácil seria agarrar uma delas logo, me consolar num ombro ossudo daqueles, mas não consigo. Só de pensar já me lembro dela e de tudo que vivemos até aqui. Não dá para viver assim. E é por isso que estou aqui, doutora. Eu quero me livrar para sempre dela, por mais doloroso que seja. Eu quero saber se a senhora tem um tratamento para eu deixar de ser… repórter. E me livrar de vez dela, da minha profissão.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

ABC sentimental

ACORDAR
Devia ser cedo. Porque eu abria os olhos e minha avó ainda estava dormindo. Eu não levantava enquanto ela não levantasse. Ela acordava e queria dormir mais, mas eu estava lá, não sabia há quanto tempo, vidrado nela, esperando que ela saísse da cama, preparasse o melhor café-da-manhã do mundo e eu pudesse brincar pela roça. Ela ficava com pena de mim e levantava. Não que eu pedisse para que fizesse tudo aquilo, se ela ficasse na cama o dia todo, a vida inteira, eu ficaria também. Minha avó era o centro da minha vidinha recém-criada. Foi a pessoa que mais amei na vida.

BOLINHO
“Esse mininu é ruim de boca”. Eu não tinha apetite, pelo menos não aquele que os adultos querem que a gente tenha, para comer arroz, feijão, legumes e verduras. Minha avó tinha algumas estratégias. Enquanto preparava a comida, cortava pedacinhos de cenoura e chuchu e eu comia. Crus. O chuchu era especialmente docinho, refrescante, um sabor que nunca mais senti. Outra estratégia era o ovo inteiro na salada. Ela fatiava ovo cozido num artefato fabricado exclusivamente para fatiar ovo cozido. Mas o meu inteiro estava sempre lá na salada, esperando minhas mãozinhas pouco habilidosas manipulá-lo e passar grande parte do almoço devorando-o. Pelo menos a proteína estava garantida. Mas o trunfo era o bolinho de feijão. Minha avó também não era de comer muito. Mas, à noite, misturava no prato arroz, feijão e farinha e comia com a mão, fazendo bolinhos dessa maçaroca enquanto assistia à novela das seis, ao BA TV Segunda Edição, aos Trapalhões ou ao estreante no domingo global, Faustão. Eu ficava do lado e ela me oferecia um, dois, três. Tinha noites que ela quase não jantava de tantos bolinhos que eu comia dela. Aquele tempero, também nunca mais houve igual. Devia ser a mão dela. E todo o amor presente naquele momento só nosso.

CAMINHÃO
A impressão era de que 1 em cada 3 caminhões tombava. Provavelmente esses acidentes eram raros, mas me comoviam por conta dos relatos meio despreocupados dos meus tios. O caminhão simplesmente tombou. A gente morava numa fazenda, a roça, como chamamos desde sempre e até hoje. Vários caminhoneiros passavam por lá para transportar o mamão produzido pelos meus tios. Alguns eram conhecidos. Tinha Manézinho, que eu achava um ser humano admirável pelo fato de ter um ventiladorzinho no caminhão de cabine amarela. Um ventilador que não ligava na tomada. Genial! Minha avó me disse anos depois que ele dormia de olhos abertos. Tomava tanto remédio para se manter alerta e continuar dirigindo que acabava dormindo sem fechar os olhos. Devia ser por isso que os caminhões tombavam tanto.

* * *

Às vezes apareciam por lá caminhoneiros com a família toda. Eu achava fascinante o fato deles terem no caminhão um fogãozinho, panelas e pratos, além de um galão de água com torneirinha preso na carroceria, e alimentarem a família toda. Achava que eles moravam no caminhão eternamente, que não tinham casas como a minha e os considerava muito sortudos por isso. Que maravilha não precisar de uma casa toda para fazer a comida e dormir (porque era só para isso que serviam as casas); ser autossuficiente, com tudo que se precisava num espaço tão pequeno entre o motor e a carroceria do caminhão; não ter móveis e coisas grandes e pesadas, e ainda viver viajando. Quando os caminhões iam embora, eu ficava atrás sentindo o cheirinho de diesel queimado, a fumaça que saía pelo escapamento. Aquilo para mim era um perfume dos deuses. Às vezes me pergunto se foi buscando aquele cheiro de novo que me mudei para a cidade grande prestes a completar 18 anos.

Publicado em memória | Deixe um comentário

Uma enciclopédia humana em Roraima

Naquela manhã de outubro de 2009, enquanto trocávamos as primeiras palavras após nos conhecermos, eu e Érico não tínhamos a mais vaga ideia de quão transformadora seria a viagem que estávamos prestes a fazer. Roraima. Guiana. Um estado e um país tão distantes geograficamente quanto culturalmente de nossas concepções de mundo. Érico ainda se recuperava de uma enriquecedora, porém cansativa, viagem por países emergentes e da posterior produção de um belíssimo livro de fotografias daqueles lugares mágicos. Minha trajetória era menos gloriosa. Havia sido demitido poucos meses antes do emprego que esperava me levar para diversos cantos do mundo – e que levou para alguns, reconheço. O hiato de trabalho não era tão longo. Mas o de viagens era sufocante.

Na sala de embarque, no entanto, estávamos exatamente na mesma situação. Relativamente novos na carreira, trabalhando para a revista que é nossa referência de trabalho, de estilo de vida e, certamente, uma das razões de exercemos nossas profissões. Àquela altura, a moldura amarela já dizia para nós muito mais do que uma revista. Exigíamos – cada um de si próprio e nunca um do outro – nada menos do que o trabalho mais bem feito de nossas vidas.

Fomos, portanto, o melhor parceiro que o outro podia ter. Íamos atrás de qualquer história que parecesse minimamente interessante – e não nos arrependemos em nenhuma investida, fosse para uma missa onde se rezava em inglês no lado brasileiro da fronteira, fosse para uma festa numa comunidade indígena no fim de uma estrada deserta de areia. Cada pessoa que encontrávamos era um fascículo de uma enciclopédia que não sabíamos em que volume terminava.

Beverley, a jovem de traços indígenas que pôs uma capa de ouro no dente assim que recebeu o primeiro salário; Carlão, o maranhense de Imperatriz, que dizia ter tido um rim inutilizado de tanto apanhar dos militares na ditadura; Saul Compton, o economista, com doutorado na Romênia, que ganhava a vida com uma loja de CDs de música brega brasileira e filmes nigerianos; o piloto americano que vivia a poucos quilômetros da fronteira, mas que nunca havia pisado no Brasil por não ter o visto; o engenheiro japonês que cansou de construir pontes e estava viajando até encontrar um jeito de “ajudar as pessoas”. Vilmar, o ex-caminhoneiro, agricultor e agora comerciante brasileiro, que nunca havia ganhado tanto dinheiro na vida, mas que não podia conversar com muita gente além da mulher e do filho, pois vivia na Guiana e não falava inglês.

Todas essas pessoas e muitas outras foram algumas que cruzamos pelo caminho, que contaram parte de suas vidas para nós, que sorriram para fotos, e que, ainda assim, não tiveram suas histórias narradas. Todas, porém, foram essenciais para que pintássemos um quadro da fronteira de Bonfim, no Brasil, com Lethem, na Guiana – “Um Brasil bilíngue em Roraima – onde os índios falam inglês”, como resumiu o mestre Ronaldo Ribeiro na capa daquela edição de janeiro de 2010 de National Geographic Brasil.

Pouco mais de um ano se passou. Encontro com Érico sempre que podemos, nos falamos sempre, fazemos planos de projetos. Nunca mais, porém, realizamos nada juntos. Nunca mais tivemos uma experiência humana que se comparasse àquela. Nenhum trabalho que eu tenha feito me dá mais orgulho. E é um dos que mais o orgulha, tenho certeza.

Naqueles sete dias de sol impiedoso e noites estreladas conhecemos um universo novo, tivemos tempo e liberdade para poder dar uma dimensão original do lugar – e não adaptá-la a uma visão pré-determinada de alguém sentado numa sala com ar-condicionado do outro lado do país.

Estivemos no Éden.

Viver todos os dias fora do paraíso tem sido custoso às nossas almas. Ao mesmo tempo, aqueles momentos nos impulsionam para tentar vivenciar uma experiência semelhante de novo. Lemos aquela enciclopédia de cabo a rabo, mas ainda há uma biblioteca inteira pela frente.

***

Fotos, de Érico Hiller:
Muçulmanos rezam em Mesquita em Lethem; família americana de adventistas que também vive na cidade, mas nunca pisou no Brasil – ele é piloto de de avião de uma organização que presta serviços médicos em comunidades isoladas, ela é enfermeira.

O índio Ivor Paulin (de óculos na testa), com quem tivemos o primeiro contato em inglês assim que chegamos a Lethem; membros femininos de uma família muçulmana guianense que mora  em Bonfim, mas tem uma loja em Lethem.

Moradora da capital guianense, Georgetown, que passava férias no hotel da família, em Lethem; Utaka Tatsuya, engenheiro japonês que estava viajando há mais de dois meses  em busca de algo maior – neste momento ele saía do Brasil e passava pela alfândega, aos olhos de funcionários guianenses.

Se você não leu, leia:
Povo sem fronteiras – Bonfim, em Roraima, e Lethem, na Guiana, vivem um intercâmbio cultural que extrapola tratados internacionais e feitos da engenharia. National Geographic Brasil, janeiro de 2010

Publicado em Uncategorized | 6 Comentários

Meu amigo Vivi

Meu melhor amigo por um tempo da infância foi Vivi. Ele trabalhava na fazenda onde eu morava e tinha (tem) umas quatro décadas a mais de vida. Além do seu trabalho regular, dirigindo trator, selecionando e encaixotando frutas e as empilhando em carrocerias de caminhões, ele era o responsável por toda e qualquer reforma ou construção na roça.

Era nessas horas que mais conversávamos. Em algum momento entre os  três e cinco anos de idade me nomeei ajudante oficial de Vivi (e até ficava enciumado se houvesse um raro ajudante de fato ao seu lado). O fascínio pela química que transforma cimento, água, areia e barro em construções me acompanharia por um bom tempo depois daqueles curtos anos na roça (em casa, não perdia uma reforma). Eu ficava passando as lajotas para ele, que fingia não poder prescindir da minha ajuda.

Vivi era meio loiro (alguém incomum entre os peões), tinha a pele enrugada e uma grande cicatriz circular abaixo de um dos olhos. As palmas de suas mãos eram calejadas e as solas dos pés, grossas a ponto de rachar. Ele usava boné, camiseta e jeans surrados e um par de havainas amarelas, daquelas do solado branco que não eram moda, cujas correias eram seguras por arames. Aparentava ser muito mais velho do que realmente era.

O que me deixava mais fascinado, no entanto, eram suas refeições. Por volta das dez da manhã ele desamarrava um pano de prato, sob o qual se encontrava uma panela amassada, sem cabo, com a tampa presa por uma tira de borracha. Dentro, uma massa compactada de arroz, feijão, farinha e, eventualmente, um bife. Ele comia metade da comida, com uma colher, e fechava de novo o recipiente. O gosto com que dava colheradas na comida até hoje estão registradas na minha memória. Aos meus olhos, parecia a melhor refeição que um ser humano já havia provado. Ele dizia que aquilo era seu café da manhã. E que mais tarde, no almoço, comeria a outra metade.

Hoje, na mesa em frente a minha, almoçavam três peões, como Vivi, porém urbanos. Eles tinham os mesmos modos e o sorriso do meu amigo. Misturavam toda a comida no prato, abriam bastante o maxilar e mexiam muito a boca enquanto mastigavam. Engraçado que nunca associei essa imagem a falta de modos à mesa, mas de gente trabalhadora comendo. Só agora me dei conta de que registrei essa imagem – que pode ser repulsiva para alguns – como a daqueles que comem com gosto, depois de uma manhã de trabalho pesado.

Senti uma surpreendente paz de espírito. Como o simples fato de ver pessoas comendo fazia como que me sentisse tão bem? Me vi de volta num tempo de inocência, de convivência com pessoas simples. Gente que (sobre)vive para trabalhar, mas sorri e chora tanto quanto eu e você. Tiveram menos oportunidades, mas são imigrantes como eu. São, de certa forma, minha gente.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

O quê que manda?

Ele nunca se importou com padrões estabelecidos de família, relacionamentos, carreira ou sucesso. Sempre preferiu a tranquilidade da solidão à confusão da vida em comunidade. Não compartilha seus problemas com ninguém – para não ter que aturar os que vêm dos outros. Não volta atrás, tampouco leva desaforo para casa.

Um dia comprou uma grande quantidade de um certo insumo para o negócio que toca sozinho – e que também não vai deixar para ninguém. Só quando chegou em casa é que percebeu que todas as unidades tinham um grave defeito de fabricação.

Como não é de fazer a mesma coisa duas vezes, não foi fazer a troca. Mas não deixava que ninguém que o fosse visitar deixasse de saber do ocorrido – porque mesmo com sua rabugice, todos sempre querem ouvir seus causos. “Perdi a tarde toda pra comprar, gastei meu dinheiro, agora tou aqui com isso que não me serve pra nada”.

Foi graças a muita insistência (ou porque não quisesse mais ter de reclamar aos outros) que resolveu voltar à loja para fazer a troca, dias depois. Ao chegar à porta do estabelecimento, o dono, conhecido de muitos anos, se alegrou em vê-lo. E o cumprimentou efusivamente, com uma expressão típica daquele lugar, sinônimo de “como vai?” ou “em que posso servi-lo?”:

“Diga, Fulano, o quê que manda?”

Não consigo imaginar constrangimento maior do que o que deve ter passado o pobre comerciante. Eis que nosso personagem, ainda enfurecido, responde:

“Eu não mando porra nenhuma, rapaz! Nem no meu pinto, que quando quero que suba, não sobe!”

Até hoje, anos depois, eu e outro ouvinte da história nos cumprimentamos de forma a homenagear nosso herói.

“Quê que manda?”

“Mando em porra nenhuma… hehehe”.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Minha amiga cigarra

Até ela chegar na mesa ao lado, eu me cobrava uma herança que não me pertencia. A moça que ocupava aquele lugar até então tinha atributos que eu achava que deveria ter. Ela chegava cedo, almoçava (rápido) no restaurante (ruim) da empresa e saía às 19h30, depois de ter passado o dia focada em suas atividades. Era uma capa atrás da outra e prestígio perante a chefia.

Quando saiu, para assumir um cargo para qual ela parecia ter nascido para ocupar, ficou em mim a responsabilidade: faça capas, seja focado, ganhe prestígio. A simples mentalização dessas metas já me torturava. Aquele jeito certinho de trabalhar (e de viver a vida) não combinava comigo.

Foi então que ela chegou. A primeira piada não deve ter demorado meia hora para acontecer. Logo ela já parava a cada 5 minutos o que está fazendo para fazer um comentário; e achava graça do que eu falava principalmente quando eu não estava brincando. E assim continua. Mas agora chega tarde, estende o almoço para comprar um casaco novo, sai cedo para viajar até Vitória a fim de visitar uma amiga, atualiza um blog… E ainda assim faz matérias grandes e cheias de personagens (entrevista como quem fala com a amiga no banheiro), faz matérias de capa e tem prestígio com a chefia (ao nosso modo).

É focada, sim. Em aproveitar um dia ensolarado para ir correr no parque, em acordar às 6h para treinar aikido, em atender ao telefone a qualquer hora para atender a mãe, as irmãs ou uma amiga que precise de ajuda. Em viver a vida de uma forma mais leve, sem deixar de cumprir todas as obrigações (e até inventar algumas).

Essa herança, sim, me pertence. Não seguirei tudo à risca (até porque, não somos iguais), mas aprendi com ela que não é preciso deixar de ser você mesmo para agradar aos outros; que o conceito de carreira bem-sucedida é amplo. Que você pode ser uma cigarra, e, ainda assim, ter comida no inverno.

Do amigo Supertramp

Publicado em Uncategorized | 5 Comentários

Bolor

O horário eleitoral gratuito, quem diria, me trouxe uma lembrança engraçada.

Porto Seguro, minha terra natal, recebe o sinal da Rede Globo por meio da TV Santa Cruz. A afiliada fica em Itabuna – cidade 276 quilômetros distante.

Por isso, a propaganda política que passa no meu antigo lar é a de Itabuna – mesmo a de candidatos a prefeito e vereadores, como era o caso naquela ocasião em meados dos anos 90.

Como eu e minha avó dependíamos totalmente da TV à noite para nos informar e entreter, até mesmo as promessas dos candidatos de uma outra cidade valiam como atração (até começar a novela). Esse hábito, consequentemente, nos deu um favorito no pleito.

O principal adversário do nosso candidato era um senhor chamado Fernando (engraçado lembrar o nome do que torcíamos contra, mas não do que queríamos que ganhasse – logo você vai entender porque).

Apoiado por ACM (de quem antes fora inimigo), Fernando (deixemos o sobrenome pra lá) era calvo, tinha um bigode anacrônico e falava um português trôpego. Perto dele, Lula é um doutor em gramática e sintaxe.

Dois temas eram diariamente falados nos programas dos candidatos. Um deles era a despoluição do rio Cachoeira, que passava no meio de Itabuna e estava praticamente morto. O outro era a construção de uma biblioteca municipal.

Eis que no dia mais marcante de sua campanha (para nós), o candidato une os dois temas da forma mais inusitada possível. Uma proposta digna de ser registrada na Biblioteca do Congresso e na Academia Brasileira de Letras. Assim falou o senhor Fernando:

“Vou construir uma biblioteca. Mas não vai ser perto do rio Cachoeira, senão vai dar bolô

Bolor, ou mofo, para quem não sabe, é um fungo que nasce em locais úmidos. E o senhor Fernando, zeloso que sempre foi com a educação, não queria ver o acervo da biblioteca tomado por esse mal.

Não tenho dúvida de que essa proposta, de uma forma ou de outra, teve alguma coisa a ver com o fato de, naquele ano, ele ter sido eleito.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Independência

Ao descer do ônibus, respiro fundo e parto para mais uma jornada de aprendizado sobre o ser humano. Minha rotina quase diária passa pelas ruas da Lapa de Baixo, um microcosmo onde tudo que é insólito parece conviver em relativa harmonia. O primeiro choque de realidade se dá ao sair do terminal rodoviário do bairro. Para chegar ao prédio onde trabalho, preciso passar pelos domínios da velhinha independente.

Ela mora sob um viaduto, na saída do terminal, onde divide o espaço durante o dia com passantes como eu e vendedores ambulantes e, à noite, com outros moradores de rua como ela. Chamá-la de moradora de rua, no entanto, é simplificar a condição desta senhora encolhida, com a pele talhada pelo sol e pelo tempo. São rugas que não deixam transparecer o quanto ela sofreu ou foi feliz em suas muitas décadas de vida.

O certo é que sua face é mais serena do que a de muitas senhoras que passaram a vida odiando a própria condição; que não puderam realizar seus sonhos por força dos costumes; que se casaram adolescentes ou nunca se casaram e, por uma coisa ou por outra, tornaram-se amargas. Essas, sim, adquirem uma feição permanentemente pesada, como se o mau-humor fosse um estado imutável.

Mas voltando à minha colega de Lapa de Baixo, ela não se comporta como alguém que vive ao relento. Quem passar pelo que ela transformou em lar sempre a encontrará realizando alguma tarefa doméstica, seja lavando uma peça de roupa ou levando um grande pedaço de papelão de um lado para o outro – o papelão é um material valioso para quem não dispõe de um colchão. Será possível ainda encontrá-la fazendo uma refeição ou penteando os cabelos brancos e crespos.

Um dia a vi passando um batom, enquanto olhava o resultado num pedaço de espelho. É de se imaginar que um item daqueles seja algo raro entre seus poucos pertences, acredito então que ela queria aproveitá-lo ao máximo. Por isso, esfregava o bastão vermelho por todo o rosto – da testa ao queixo.

Confesso que me dá um nó na garganta quando presencio cenas como essa. Imagino a pequena senhora atormentada, portadora de esquizofrenia ou algo do gênero. Por outro lado, levo em conta que, se há uma vantagem de se morar na rua, é que não é preciso dar satisfações a ninguém. E se você acha ou ganha um batom, e não tem mesmo ocasião para usá-lo, porque não pintar o próprio rosto só para dar risada de si próprio?

Ultimamente tenho pensando que a condição dela não é, necessariamente, digna de pena. E se, cansada de uma família problemática, ela simplesmente saiu andando, deixando tudo para trás? E se em sua antiga casa a tratavam como uma criança problemática? É fácil se dizer independente quando você tem dinheiro no banco. A quem depende dos outros, só resta a piedade alheia ou a rua.

É claro que a verdadeira história dessa senhora está longe de poder ser deduzida por um jovem escriba de classe média a quem a vida deu tudo. No entanto, não custa fazer um esforço para repensar os conceitos de sucesso, independência e bem-estar. Caso essa possibilidade aqui lançada seja real, será que ela não é mais feliz hoje do que seria se continuasse na condição anterior? Eu nunca a ouvi reclamar. Diferente de muitas senhoras “independentes” que encontro por aí.

Publicado em Uncategorized | 3 Comentários

Gente

No largo corredor que liga a plataforma do trem à do metrô, vejo uma enxurrada de rostos vindo na direção oposta à minha. Fico imaginando a história de cada um deles, mesmo que as imagens das faces durem frações de segundo na minha memória. É um dos pontos altos do dia.

Enquanto uns observam o cosmo, as reações químicas ou o sobe e desce das bolsas, eu observo gente. Não consigo imaginar mistério maior e ao mesmo tempo tão acessível. Observar gente ajuda a me entender melhor – e, consequetemente, entender melhor os outros.

E é por causa de gente que eu escrevo. Gosto de contar histórias e dividir impressões sobre aqueles que passaram pelo meu campo de visão. Até hoje dividi todas elas com um pequeno círculo de antropólogos amadores como eu. Pretendo, agora, unir os dois prazeres – escrever e observar – aqui neste blog.

Não é de hoje que brinco com a internet para satisfazer a ânsia por me expressar. Nos últimos tempos, porém, achei que precisava me dedicar exclusivamente a outro tipo de escrita. Embora tenha me proporcionado experiências riquíssimas, ainda sentia falta de algo que estivesse sempre pronto para receber minhas impressões sobre o mundo que me cerca. E aqui estou.

Como gente é imprevisível, não farei promessas de periodicidade (mas garanto que vontade e assunto não faltam). E já que gente – mesmo sendo tão interessante – também fica chata, vou encerrando por aqui essa estreia mal-traçada.

Mais do que apenas “falar”, quero “ouvir”: receber histórias e impressões de quem me lê. Sobre elas, sobre mim, sobre nós – misteriosamente óbvios seres humanos.

No largo corredor que liga a plataforma do trem para o metrô, vejo uma enxurrada de rostos vindo na direção oposta à minha. Fico imaginando a história de cada um deles, mesmo que as imagens das faces durem frações de segundo na minha memória. É um dos pontos altos do dia.
Enquanto uns observam o cosmo, as reações químicas ou o sobe e desce das bolsas, eu observo gente. Não consigo imaginar mistério maior e ao mesmo tempo tão acessível. Observar gente ajuda a me entender melhor – e, consequetemente, entender melhor os outros.
E é por causa de gente que eu escrevo. Gosto de contar histórias e dividir impressões sobre aqueles que passaram pelo meu campo de visão. Até hoje dividi todas elas com um pequeno círculo de antropólogos amadores como eu. Pretendo, agora, unir os dois prazeres – escrever e observar – aqui neste blog.
Não é de hoje que brinco com a internet para satisfazer a ânsia por me expressar. Nos últimos tempos, porém, achei que precisava me dedicar exclusivamente a outro tipo de escrita. Embora tenha me proporcionado experiências riquíssimas, ainda sentia falta de algo que estivesse sempre pronto a receber minhas impressões sobre o mundo que me cerca. E aqui estou.
Como gente é imprevisível, não farei promessas de periodicidade (mas garanto que vontade e assunto não faltam). E já que gente – mesmo sendo tão interessante – também fica chata, vou encerrando por aqui essa estreia mal-traçada.
Mais do que apenas “falar”, quero “ouvir”: receber histórias e impressões de quem me lê. Sobre elas, sobre mim, sobre nós – misteriosamente óbvios seres humanos.
Publicado em Uncategorized | 2 Comentários