Uma enciclopédia humana em Roraima

Naquela manhã de outubro de 2009, enquanto trocávamos as primeiras palavras após nos conhecermos, eu e Érico não tínhamos a mais vaga ideia de quão transformadora seria a viagem que estávamos prestes a fazer. Roraima. Guiana. Um estado e um país tão distantes geograficamente quanto culturalmente de nossas concepções de mundo. Érico ainda se recuperava de uma enriquecedora, porém cansativa, viagem por países emergentes e da posterior produção de um belíssimo livro de fotografias daqueles lugares mágicos. Minha trajetória era menos gloriosa. Havia sido demitido poucos meses antes do emprego que esperava me levar para diversos cantos do mundo – e que levou para alguns, reconheço. O hiato de trabalho não era tão longo. Mas o de viagens era sufocante.

Na sala de embarque, no entanto, estávamos exatamente na mesma situação. Relativamente novos na carreira, trabalhando para a revista que é nossa referência de trabalho, de estilo de vida e, certamente, uma das razões de exercemos nossas profissões. Àquela altura, a moldura amarela já dizia para nós muito mais do que uma revista. Exigíamos – cada um de si próprio e nunca um do outro – nada menos do que o trabalho mais bem feito de nossas vidas.

Fomos, portanto, o melhor parceiro que o outro podia ter. Íamos atrás de qualquer história que parecesse minimamente interessante – e não nos arrependemos em nenhuma investida, fosse para uma missa onde se rezava em inglês no lado brasileiro da fronteira, fosse para uma festa numa comunidade indígena no fim de uma estrada deserta de areia. Cada pessoa que encontrávamos era um fascículo de uma enciclopédia que não sabíamos em que volume terminava.

Beverley, a jovem de traços indígenas que pôs uma capa de ouro no dente assim que recebeu o primeiro salário; Carlão, o maranhense de Imperatriz, que dizia ter tido um rim inutilizado de tanto apanhar dos militares na ditadura; Saul Compton, o economista, com doutorado na Romênia, que ganhava a vida com uma loja de CDs de música brega brasileira e filmes nigerianos; o piloto americano que vivia a poucos quilômetros da fronteira, mas que nunca havia pisado no Brasil por não ter o visto; o engenheiro japonês que cansou de construir pontes e estava viajando até encontrar um jeito de “ajudar as pessoas”. Vilmar, o ex-caminhoneiro, agricultor e agora comerciante brasileiro, que nunca havia ganhado tanto dinheiro na vida, mas que não podia conversar com muita gente além da mulher e do filho, pois vivia na Guiana e não falava inglês.

Todas essas pessoas e muitas outras foram algumas que cruzamos pelo caminho, que contaram parte de suas vidas para nós, que sorriram para fotos, e que, ainda assim, não tiveram suas histórias narradas. Todas, porém, foram essenciais para que pintássemos um quadro da fronteira de Bonfim, no Brasil, com Lethem, na Guiana – “Um Brasil bilíngue em Roraima – onde os índios falam inglês”, como resumiu o mestre Ronaldo Ribeiro na capa daquela edição de janeiro de 2010 de National Geographic Brasil.

Pouco mais de um ano se passou. Encontro com Érico sempre que podemos, nos falamos sempre, fazemos planos de projetos. Nunca mais, porém, realizamos nada juntos. Nunca mais tivemos uma experiência humana que se comparasse àquela. Nenhum trabalho que eu tenha feito me dá mais orgulho. E é um dos que mais o orgulha, tenho certeza.

Naqueles sete dias de sol impiedoso e noites estreladas conhecemos um universo novo, tivemos tempo e liberdade para poder dar uma dimensão original do lugar – e não adaptá-la a uma visão pré-determinada de alguém sentado numa sala com ar-condicionado do outro lado do país.

Estivemos no Éden.

Viver todos os dias fora do paraíso tem sido custoso às nossas almas. Ao mesmo tempo, aqueles momentos nos impulsionam para tentar vivenciar uma experiência semelhante de novo. Lemos aquela enciclopédia de cabo a rabo, mas ainda há uma biblioteca inteira pela frente.

***

Fotos, de Érico Hiller:
Muçulmanos rezam em Mesquita em Lethem; família americana de adventistas que também vive na cidade, mas nunca pisou no Brasil – ele é piloto de de avião de uma organização que presta serviços médicos em comunidades isoladas, ela é enfermeira.

O índio Ivor Paulin (de óculos na testa), com quem tivemos o primeiro contato em inglês assim que chegamos a Lethem; membros femininos de uma família muçulmana guianense que mora  em Bonfim, mas tem uma loja em Lethem.

Moradora da capital guianense, Georgetown, que passava férias no hotel da família, em Lethem; Utaka Tatsuya, engenheiro japonês que estava viajando há mais de dois meses  em busca de algo maior – neste momento ele saía do Brasil e passava pela alfândega, aos olhos de funcionários guianenses.

Se você não leu, leia:
Povo sem fronteiras – Bonfim, em Roraima, e Lethem, na Guiana, vivem um intercâmbio cultural que extrapola tratados internacionais e feitos da engenharia. National Geographic Brasil, janeiro de 2010

Publicado em Uncategorized | 6 Comentários

Meu amigo Vivi

Meu melhor amigo por um tempo da infância foi Vivi. Ele trabalhava na fazenda onde eu morava e tinha (tem) umas quatro décadas a mais de vida. Além do seu trabalho regular, dirigindo trator, selecionando e encaixotando frutas e as empilhando em carrocerias de caminhões, ele era o responsável por toda e qualquer reforma ou construção na roça.

Era nessas horas que mais conversávamos. Em algum momento entre os  três e cinco anos de idade me nomeei ajudante oficial de Vivi (e até ficava enciumado se houvesse um raro ajudante de fato ao seu lado). O fascínio pela química que transforma cimento, água, areia e barro em construções me acompanharia por um bom tempo depois daqueles curtos anos na roça (em casa, não perdia uma reforma). Eu ficava passando as lajotas para ele, que fingia não poder prescindir da minha ajuda.

Vivi era meio loiro (alguém incomum entre os peões), tinha a pele enrugada e uma grande cicatriz circular abaixo de um dos olhos. As palmas de suas mãos eram calejadas e as solas dos pés, grossas a ponto de rachar. Ele usava boné, camiseta e jeans surrados e um par de havainas amarelas, daquelas do solado branco que não eram moda, cujas correias eram seguras por arames. Aparentava ser muito mais velho do que realmente era.

O que me deixava mais fascinado, no entanto, eram suas refeições. Por volta das dez da manhã ele desamarrava um pano de prato, sob o qual se encontrava uma panela amassada, sem cabo, com a tampa presa por uma tira de borracha. Dentro, uma massa compactada de arroz, feijão, farinha e, eventualmente, um bife. Ele comia metade da comida, com uma colher, e fechava de novo o recipiente. O gosto com que dava colheradas na comida até hoje estão registradas na minha memória. Aos meus olhos, parecia a melhor refeição que um ser humano já havia provado. Ele dizia que aquilo era seu café da manhã. E que mais tarde, no almoço, comeria a outra metade.

Hoje, na mesa em frente a minha, almoçavam três peões, como Vivi, porém urbanos. Eles tinham os mesmos modos e o sorriso do meu amigo. Misturavam toda a comida no prato, abriam bastante o maxilar e mexiam muito a boca enquanto mastigavam. Engraçado que nunca associei essa imagem a falta de modos à mesa, mas de gente trabalhadora comendo. Só agora me dei conta de que registrei essa imagem – que pode ser repulsiva para alguns – como a daqueles que comem com gosto, depois de uma manhã de trabalho pesado.

Senti uma surpreendente paz de espírito. Como o simples fato de ver pessoas comendo fazia como que me sentisse tão bem? Me vi de volta num tempo de inocência, de convivência com pessoas simples. Gente que (sobre)vive para trabalhar, mas sorri e chora tanto quanto eu e você. Tiveram menos oportunidades, mas são imigrantes como eu. São, de certa forma, minha gente.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

O quê que manda?

Ele nunca se importou com padrões estabelecidos de família, relacionamentos, carreira ou sucesso. Sempre preferiu a tranquilidade da solidão à confusão da vida em comunidade. Não compartilha seus problemas com ninguém – para não ter que aturar os que vêm dos outros. Não volta atrás, tampouco leva desaforo para casa.

Um dia comprou uma grande quantidade de um certo insumo para o negócio que toca sozinho – e que também não vai deixar para ninguém. Só quando chegou em casa é que percebeu que todas as unidades tinham um grave defeito de fabricação.

Como não é de fazer a mesma coisa duas vezes, não foi fazer a troca. Mas não deixava que ninguém que o fosse visitar deixasse de saber do ocorrido – porque mesmo com sua rabugice, todos sempre querem ouvir seus causos. “Perdi a tarde toda pra comprar, gastei meu dinheiro, agora tou aqui com isso que não me serve pra nada”.

Foi graças a muita insistência (ou porque não quisesse mais ter de reclamar aos outros) que resolveu voltar à loja para fazer a troca, dias depois. Ao chegar à porta do estabelecimento, o dono, conhecido de muitos anos, se alegrou em vê-lo. E o cumprimentou efusivamente, com uma expressão típica daquele lugar, sinônimo de “como vai?” ou “em que posso servi-lo?”:

“Diga, Fulano, o quê que manda?”

Não consigo imaginar constrangimento maior do que o que deve ter passado o pobre comerciante. Eis que nosso personagem, ainda enfurecido, responde:

“Eu não mando porra nenhuma, rapaz! Nem no meu pinto, que quando quero que suba, não sobe!”

Até hoje, anos depois, eu e outro ouvinte da história nos cumprimentamos de forma a homenagear nosso herói.

“Quê que manda?”

“Mando em porra nenhuma… hehehe”.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Minha amiga cigarra

Até ela chegar na mesa ao lado, eu me cobrava uma herança que não me pertencia. A moça que ocupava aquele lugar até então tinha atributos que eu achava que deveria ter. Ela chegava cedo, almoçava (rápido) no restaurante (ruim) da empresa e saía às 19h30, depois de ter passado o dia focada em suas atividades. Era uma capa atrás da outra e prestígio perante a chefia.

Quando saiu, para assumir um cargo para qual ela parecia ter nascido para ocupar, ficou em mim a responsabilidade: faça capas, seja focado, ganhe prestígio. A simples mentalização dessas metas já me torturava. Aquele jeito certinho de trabalhar (e de viver a vida) não combinava comigo.

Foi então que ela chegou. A primeira piada não deve ter demorado meia hora para acontecer. Logo ela já parava a cada 5 minutos o que está fazendo para fazer um comentário; e achava graça do que eu falava principalmente quando eu não estava brincando. E assim continua. Mas agora chega tarde, estende o almoço para comprar um casaco novo, sai cedo para viajar até Vitória a fim de visitar uma amiga, atualiza um blog… E ainda assim faz matérias grandes e cheias de personagens (entrevista como quem fala com a amiga no banheiro), faz matérias de capa e tem prestígio com a chefia (ao nosso modo).

É focada, sim. Em aproveitar um dia ensolarado para ir correr no parque, em acordar às 6h para treinar aikido, em atender ao telefone a qualquer hora para atender a mãe, as irmãs ou uma amiga que precise de ajuda. Em viver a vida de uma forma mais leve, sem deixar de cumprir todas as obrigações (e até inventar algumas).

Essa herança, sim, me pertence. Não seguirei tudo à risca (até porque, não somos iguais), mas aprendi com ela que não é preciso deixar de ser você mesmo para agradar aos outros; que o conceito de carreira bem-sucedida é amplo. Que você pode ser uma cigarra, e, ainda assim, ter comida no inverno.

Do amigo Supertramp

Publicado em Uncategorized | 5 Comentários

Bolor

O horário eleitoral gratuito, quem diria, me trouxe uma lembrança engraçada.

Porto Seguro, minha terra natal, recebe o sinal da Rede Globo por meio da TV Santa Cruz. A afiliada fica em Itabuna – cidade 276 quilômetros distante.

Por isso, a propaganda política que passa no meu antigo lar é a de Itabuna – mesmo a de candidatos a prefeito e vereadores, como era o caso naquela ocasião em meados dos anos 90.

Como eu e minha avó dependíamos totalmente da TV à noite para nos informar e entreter, até mesmo as promessas dos candidatos de uma outra cidade valiam como atração (até começar a novela). Esse hábito, consequentemente, nos deu um favorito no pleito.

O principal adversário do nosso candidato era um senhor chamado Fernando (engraçado lembrar o nome do que torcíamos contra, mas não do que queríamos que ganhasse – logo você vai entender porque).

Apoiado por ACM (de quem antes fora inimigo), Fernando (deixemos o sobrenome pra lá) era calvo, tinha um bigode anacrônico e falava um português trôpego. Perto dele, Lula é um doutor em gramática e sintaxe.

Dois temas eram diariamente falados nos programas dos candidatos. Um deles era a despoluição do rio Cachoeira, que passava no meio de Itabuna e estava praticamente morto. O outro era a construção de uma biblioteca municipal.

Eis que no dia mais marcante de sua campanha (para nós), o candidato une os dois temas da forma mais inusitada possível. Uma proposta digna de ser registrada na Biblioteca do Congresso e na Academia Brasileira de Letras. Assim falou o senhor Fernando:

“Vou construir uma biblioteca. Mas não vai ser perto do rio Cachoeira, senão vai dar bolô

Bolor, ou mofo, para quem não sabe, é um fungo que nasce em locais úmidos. E o senhor Fernando, zeloso que sempre foi com a educação, não queria ver o acervo da biblioteca tomado por esse mal.

Não tenho dúvida de que essa proposta, de uma forma ou de outra, teve alguma coisa a ver com o fato de, naquele ano, ele ter sido eleito.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Independência

Ao descer do ônibus, respiro fundo e parto para mais uma jornada de aprendizado sobre o ser humano. Minha rotina quase diária passa pelas ruas da Lapa de Baixo, um microcosmo onde tudo que é insólito parece conviver em relativa harmonia. O primeiro choque de realidade se dá ao sair do terminal rodoviário do bairro. Para chegar ao prédio onde trabalho, preciso passar pelos domínios da velhinha independente.

Ela mora sob um viaduto, na saída do terminal, onde divide o espaço durante o dia com passantes como eu e vendedores ambulantes e, à noite, com outros moradores de rua como ela. Chamá-la de moradora de rua, no entanto, é simplificar a condição desta senhora encolhida, com a pele talhada pelo sol e pelo tempo. São rugas que não deixam transparecer o quanto ela sofreu ou foi feliz em suas muitas décadas de vida.

O certo é que sua face é mais serena do que a de muitas senhoras que passaram a vida odiando a própria condição; que não puderam realizar seus sonhos por força dos costumes; que se casaram adolescentes ou nunca se casaram e, por uma coisa ou por outra, tornaram-se amargas. Essas, sim, adquirem uma feição permanentemente pesada, como se o mau-humor fosse um estado imutável.

Mas voltando à minha colega de Lapa de Baixo, ela não se comporta como alguém que vive ao relento. Quem passar pelo que ela transformou em lar sempre a encontrará realizando alguma tarefa doméstica, seja lavando uma peça de roupa ou levando um grande pedaço de papelão de um lado para o outro – o papelão é um material valioso para quem não dispõe de um colchão. Será possível ainda encontrá-la fazendo uma refeição ou penteando os cabelos brancos e crespos.

Um dia a vi passando um batom, enquanto olhava o resultado num pedaço de espelho. É de se imaginar que um item daqueles seja algo raro entre seus poucos pertences, acredito então que ela queria aproveitá-lo ao máximo. Por isso, esfregava o bastão vermelho por todo o rosto – da testa ao queixo.

Confesso que me dá um nó na garganta quando presencio cenas como essa. Imagino a pequena senhora atormentada, portadora de esquizofrenia ou algo do gênero. Por outro lado, levo em conta que, se há uma vantagem de se morar na rua, é que não é preciso dar satisfações a ninguém. E se você acha ou ganha um batom, e não tem mesmo ocasião para usá-lo, porque não pintar o próprio rosto só para dar risada de si próprio?

Ultimamente tenho pensando que a condição dela não é, necessariamente, digna de pena. E se, cansada de uma família problemática, ela simplesmente saiu andando, deixando tudo para trás? E se em sua antiga casa a tratavam como uma criança problemática? É fácil se dizer independente quando você tem dinheiro no banco. A quem depende dos outros, só resta a piedade alheia ou a rua.

É claro que a verdadeira história dessa senhora está longe de poder ser deduzida por um jovem escriba de classe média a quem a vida deu tudo. No entanto, não custa fazer um esforço para repensar os conceitos de sucesso, independência e bem-estar. Caso essa possibilidade aqui lançada seja real, será que ela não é mais feliz hoje do que seria se continuasse na condição anterior? Eu nunca a ouvi reclamar. Diferente de muitas senhoras “independentes” que encontro por aí.

Publicado em Uncategorized | 3 Comentários

Gente

No largo corredor que liga a plataforma do trem à do metrô, vejo uma enxurrada de rostos vindo na direção oposta à minha. Fico imaginando a história de cada um deles, mesmo que as imagens das faces durem frações de segundo na minha memória. É um dos pontos altos do dia.

Enquanto uns observam o cosmo, as reações químicas ou o sobe e desce das bolsas, eu observo gente. Não consigo imaginar mistério maior e ao mesmo tempo tão acessível. Observar gente ajuda a me entender melhor – e, consequetemente, entender melhor os outros.

E é por causa de gente que eu escrevo. Gosto de contar histórias e dividir impressões sobre aqueles que passaram pelo meu campo de visão. Até hoje dividi todas elas com um pequeno círculo de antropólogos amadores como eu. Pretendo, agora, unir os dois prazeres – escrever e observar – aqui neste blog.

Não é de hoje que brinco com a internet para satisfazer a ânsia por me expressar. Nos últimos tempos, porém, achei que precisava me dedicar exclusivamente a outro tipo de escrita. Embora tenha me proporcionado experiências riquíssimas, ainda sentia falta de algo que estivesse sempre pronto para receber minhas impressões sobre o mundo que me cerca. E aqui estou.

Como gente é imprevisível, não farei promessas de periodicidade (mas garanto que vontade e assunto não faltam). E já que gente – mesmo sendo tão interessante – também fica chata, vou encerrando por aqui essa estreia mal-traçada.

Mais do que apenas “falar”, quero “ouvir”: receber histórias e impressões de quem me lê. Sobre elas, sobre mim, sobre nós – misteriosamente óbvios seres humanos.

No largo corredor que liga a plataforma do trem para o metrô, vejo uma enxurrada de rostos vindo na direção oposta à minha. Fico imaginando a história de cada um deles, mesmo que as imagens das faces durem frações de segundo na minha memória. É um dos pontos altos do dia.
Enquanto uns observam o cosmo, as reações químicas ou o sobe e desce das bolsas, eu observo gente. Não consigo imaginar mistério maior e ao mesmo tempo tão acessível. Observar gente ajuda a me entender melhor – e, consequetemente, entender melhor os outros.
E é por causa de gente que eu escrevo. Gosto de contar histórias e dividir impressões sobre aqueles que passaram pelo meu campo de visão. Até hoje dividi todas elas com um pequeno círculo de antropólogos amadores como eu. Pretendo, agora, unir os dois prazeres – escrever e observar – aqui neste blog.
Não é de hoje que brinco com a internet para satisfazer a ânsia por me expressar. Nos últimos tempos, porém, achei que precisava me dedicar exclusivamente a outro tipo de escrita. Embora tenha me proporcionado experiências riquíssimas, ainda sentia falta de algo que estivesse sempre pronto a receber minhas impressões sobre o mundo que me cerca. E aqui estou.
Como gente é imprevisível, não farei promessas de periodicidade (mas garanto que vontade e assunto não faltam). E já que gente – mesmo sendo tão interessante – também fica chata, vou encerrando por aqui essa estreia mal-traçada.
Mais do que apenas “falar”, quero “ouvir”: receber histórias e impressões de quem me lê. Sobre elas, sobre mim, sobre nós – misteriosamente óbvios seres humanos.
Publicado em Uncategorized | 2 Comentários